quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

GENEROSIDADE

Natal se aproximando e a generosidade das pessoas aflora. É uma pena que não se veja durante o ano inteiro, os corações tão abertos como agora. O povo brasileiro é caridoso por natureza, e acho que é só uma questão de incentivo. Ontem no noticiário houve uma reportagem sobre trabalho voluntário, que vem felizmente aumentando em nosso país. As mulheres são maioria, ainda, mais a gratidão pela sensação de felicidade que o voluntariado traz, permeia homens e mulheres que se dedicam, de alguma maneira, a abrir mão de um pouco do seu tempo para ajudar o outro.
Muitas vezes a generosidade vem também através da ajuda financeira que, a primeira vista, parece ser mais fácil de se exercitar, pois não demanda tempo e dedicação. Mas não é menos importante, pois vemos pessoas que já têm tão pouco, doando, repartindo.

Uns dois anos antes de me aposentar, eu fazia parte de uma comissão que cuidava da doação de material reciclável, basicamente papel, para uma associação de catadores. Descobrimos que a empresa que comprava dos catadores, pagava bem pouco pelo material, pois ele vinha misturado. Não havia uma separação prévia por tipo (jornal, A4, papelão) e os papeis muitas vezes chegavam grampeados, com clipes, etc. Recebendo o material separado, o valor pago por kg aos catadores mais do que dobrava. Em conversa com a presidente da associação, soubemos que eles não faziam a separação porque era difícil o deslocamento até os 3 prédios da CEF, onde a maior parte do material estava. Pensando numa maneira de solucionar essa questão, perguntei a ela se a doação de uma bicicleta resolveria o problema. Os catadores poderiam se deslocar de casa até os prédios, onde conseguimos um espaço na garagem para que fizessem a separação.
Acertado esse ponto, partimos para uma campanha de arrecadação que nos permitisse adquirir as bicicletas. Falei com meu Superintendente, que autorizou que eu mandasse um email às agências vinculadas a nós, bem como a cada empregado dessas unidades. Na época éramos uns 900 empregados e imaginei que, se cada empregado doasse um único real, conseguiríamos adquirir 3 bicicletas, permitindo a ida aos 3 prédios da CEF.
Redigi o email, expliquei o caso e pedi a colaboração dos colegas empregados. A resposta da equipe foi surpreendente: já no primeiro dia havíamos arrecadado o suficiente para comprar as 3 bicicletas. Mandei um email emocionado agradecendo a participação, por ver que eu fazia parte de uma equipe para lá de generosa! Acho que pouquíssimos foram aqueles que doaram apenas R$1,00. Apareceram doações de R$50, R$100 e até mesmo um cliente da Agência Guará, que ouvira um empregado comentando, doou. Ele era dono de uma loja de bicicletas e foi lá na Superintendência levar uma bike novinha. Teve gerente que, quando soube que faltava metade para conseguirmos fechar o valor para mais uma bicicleta, me ligou dizendo que eu poderia comprar, que ele estava transferindo o dinheiro. No total conseguimos 7 bicicletas, que entregamos à dona Socorro, presidente da associação. Foram 900 pessoas se empenhando para que um grupo de pessoas totalmente desfavorecidas conseguisse ter uma renda um pouco melhor. 
O coração da gente se aquece quando vê coisas assim. Me lembro de ter pensado, quando em 24h batemos nossa meta de adquirir 3 bikes, "que time maravilhoso é esse que eu faço parte". 
Infelizmente, cerca de um mês depois, dona Socorro me ligou, aos prantos, dizendo que um dos catadores trocara uma das bicicletas por crack. Uma pena. Mas a gente sabia que outras 6 pessoas estavam contribuindo para a comunidade em que viviam, aumentando sua fonte de renda, e isso fora possível porque alguns de nós abrira seus corações para ajudar o próximo. A sensação de se saber agente de uma mudança transformadora na melhoria de vida de alguém é impagável e com isso se ganha muito mais do que dá.

domingo, 25 de novembro de 2018

TODOS IGUAIS...PERO NO MUCHO...

Passadas as eleições presidenciais, continuamos vendo a Esquerda falar em "resistência" e criticar a escolha dos novos ministros. Sem querer entrar no mérito se o novo presidente foi a melhor a escolha, o que me surpreende é ver como os militantes da Esquerda neste país são iludidos, fingidos ou burros mesmo!!! Talvez as 3 alternativas juntas.
Faz-se apologia dos regimes de Esquerda, que não deram certo em lugar algum do mundo. Che Guevara e Fidel são idealizados como grandes estadistas. Me pergunto se são só iludidos ou mal informados mesmo.

Estive em Cuba em 1990 e foi uma experiência bem interessante ver, in loco, como funciona o socialismo. Igualdade para todos...pero no mucho.
No primeiro dia em Havana, eu e minha irmã pegamos um city tour, cujo guia era um médico, que fazia tal serviço para complementar sua renda (à época o equivalente a USD 14!). Na rua éramos seguidos por crianças que nos pediam, não dinheiro, mas uma "pluna". Descobri que a tal pluna era a versão caribenha da nossa boa e velha Bic. 
As "tiendas" eram separadas para turistas e locais. Nas dos turistas, as mercadorias eram negociadas apenas em dólar, e havia uma variedade jamais imaginada pela população residente.

Minha irmã e eu resolvemos ir conhecer a sorveteria Copélia, que é bem famosa em Havana. O sol estava inclemente, mas mesmo assim ficamos na enorme fila do lado de fora do estabelecimento. Depois de uns 5 minutos aguardando, acho que alguém percebeu que éramos turistas e, rapidamente, fomos tiradas da fila e colocadas numa sala, com ar condicionado, onde um garçom anotou nosso pedido. Foi constrangedor sair da fila, deixando para trás tanta gente que aguardava há muito mais tempo que nós.
Na volta para o hotel, tentamos pegar um táxi. Chovia copiosamente, e nenhum veículo para o qual acenávamos, parava. Finalmente uns rapazes que estavam do outro lado da rua se aproximaram e nos informaram que não adiantava fazer sinal para os motoristas. Tínhamos o tipo físico de cubanas, então eles achavam que éramos locais, o que automaticamente nos proibia de pegar um transporte deste tipo.

O Malecon, a avenida a beira-mar, me pareceu triste; sem qualquer tipo de vegetação, como coqueiros, palmeiras, nada. Só concreto na calçada e areia. Por todo canto se viam cartazes  exortando as virtudes do socialismo e muitas fotos de seus líderes.
Uma outra coisa que me chamou a atenção, é que achava que a população era basicamente negra, num estilo meio soteropolitano: vários tons de pele, da mais negra à mulata e suas variações. Na verdade, só vi pessoas muito negras, assim como muito, muito brancas, de olhos claros, num padrão meio europeu. Num táxi que pegamos, o motorista parecia sueco! Me surpreendeu não ver tonalidades variadas de pele morena. Eram os dois extremos: negros e brancos.

Quando chegamos em Cayo Largo, uma ilha com a praia mais linda que já vi na vida (Praia Sirena), um grupo nos aguardava no aeroporto, servindo coqueteis e cantando uma música cujo refrão dizia: "comandante Che Guevara".
Estranhei que tanto em Havana como em Cayo Largo não víssemos pequenas embarcações, típicas de pescadores, já que estávamos numa ilha. Discretamente nos informaram que a pesca não era incentivada, pois todos que tinham a possibilidade de ter um barco acabavam fugindo.

Nesta viagem minha irmã conheceu um cubano, que 3 anos mais tarde, se tornaria seu marido.
Veio morar no Brasil com ela, e algum tempo depois, conseguiu permissão para que sua mãe viesse a passeio para uma temporada. Irene ficou por aqui cerca de 1 ano, e uma coisa que eu jamais me esqueci, foi sua paixão por chuchu!!!! Um dia ela foi a um pequeno mercado próximo à casa da minha irmã, e quando viu chuchu começou a chorar! Disse que amava chuchu, mas que há mais de 30 anos não comia, pois depois da revolução, praticamente toda terra cubana era dedicada ao cultivo de cana e tabaco. Ela ficou ainda extasiada com a variedade de produtos e fico imaginando sua surpresa se, ao invés de um pequeno mercado de quadra, ela tivesse ido a um dos enormes hipermercados que temos aqui....

Nas férias minha irmã e meu cunhado iam sempre a Cuba, e invariavelmente, pagavam um excesso de bagagem enorme. Teve uma vez que levaram 100kg de bagagem extra, pois na mala iam coisas básicas que eram preciosas lá. Eram litros e litros de shampoo, condicionador, lingerie, roupas em geral, que abasteceriam a família dele. (Pela caderneta de racionamento, cada habitante tinha direito a um único sabonete por mês, lembro bem.). E olha que a família de O. tinha alguns privilégios, pois o pai era coronel do Exército que lutara junto com Fidel.
Numa dessas idas a Caibarién, minha irmã se machucou. Logo na entrada do hospital, foi avisada que, caso fosse preciso ficar internada, ela deveria providenciar a roupa de cama, absorvente íntimo, alimentação, enfim, tudo. Felizmente fora um pequeno corte no pé, e apenas uns pontos foram necessários. A tão famosa medicina cubana, não era assim essas coisas todas. Estava bem próxima do nosso SUS!
Ainda numas férias, quando foi convidada por uns amigos do meu cunhado para uma festa, perguntou o que deveria levar. "Uma barra de gelo", responderam. Ela estranhou, mas depois entendeu. Com o racionamento de energia, ter uma geladeira em casa que pudesse fazer gelo era artigo de luxo. Ela, viajando com dólares, poderia facilmente adquirir o gelo que serviria para resfriar as bebidas.

Depois de uns 6 anos o casamento terminou e hoje O. mora na Flórica, como centenas de cubanos. Mas sempre que lembro dele, penso em quão linda é a sua ilha e como poderia estar numa situação melhor. Seria bom se a nossa "Esquerda festiva" fosse passar uns dias por lá para ver a realidade cotidiana desse povo. Em uma coisa eles se parecem conosco: apesar de todas as necessidades, não perdem a alegria.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

CRIANÇAS

Chegando na casa de uma amiga, vi o filho dela fazendo as tarefas da escola. Vendo-o tão concentrado, perguntei:
- Em que ano você está?
Ele olhou para mim com os olhos bem arregalados e disse:
- Em 2018! Por que? Você está em qual???

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Meu sobrinho D, quando pequenino, tinha mania de "entrevistar" a gente. Qualquer caneta servia de microfone, e as perguntas eram sempre as mesmas (nome, idade, etc), porém com uma certa fixação por lâmpadas, sabe-se lá porquê!
Um dia percebi que TIA era simplesmente um nome qualquer para ele, sem nenhum significado de parentesco:
- Como é o seu nome?
- Virginia
- Na sua casa tem lâmpadas?
- Sim
- Quantas?
- Umas 20.
- Como é o nome do seu pai?
- Wilson.
- Que legal! É o nome do meu avô também.
- Meu filho, SEU avô é o MEU pai. Seu pai é meu irmão.
Com a cara mais espantada do mundo ele falou:
- Não????? Sério????????

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Quando minha sobrinha F era pequena, ficava na casa da minha mãe pela manhã, enquanto minha irmã trabalhava.
Um dia as paredes do corredor apareceram todas riscadas/desenhadas.
Minha mãe ralhou com ela.
- Como é que você faz isso na casa da vovó?!
- Não fui eu, vó!
- Como não, filha? Aqui só mora eu, seu avô e você. Seu avô não iria fazer isso nas paredes.
Desafiadoramente ela olhou para cima e disse:
- PROVE que fui eu.

sábado, 15 de setembro de 2018

AMOR DE NOVELA

Aos 15/16 anos eu tinha uma amiga meio espoleta, a B. A gente andava sempre juntas e, depois que entrei na UnB, pouco tempo depois ela entrou também.
Eu não tinha idade ainda para dirigir, e ia sempre para aula com minha irmã e a B, de carona, que falava pelos cotovelos.
B era filha temporã, de um total de 5 irmãos, se não me engano. Os irmãos já eram casados e tinham pelo menos uns 10 anos a mais que ela.
Uma dessas irmãs morava no Rio, e B sempre ia de férias para casa de MT, que tinha um enteado que morava com ela.
P era da idade de B, talvez um ou dois anos mais novo. Teoricamente B era "tia" de P, mas isso não impediu que se envolvessem.
Esse namorico/ficada, sei lá como chamar, durou vários verões, várias idas ao Rio, e jamais imaginei que hoje, quase uns 30 anos depois, eu fosse descobrir uma estória de novela!
Os anos se passaram, eu e B acabamos nos afastando, mas soube que ela se casara, tivera 2 filhos.
Pouco antes de me aposentar, uma amiga em comum disse que ela largara tudo (marido/filhos) e se mandara para o Rio.
Não pensei nisso durante anos, mas essa semana encontrei B no Facebook. Num post que ela publicara, um de seus irmãos fazia um comentário sobre P.
De repente me lembrei de toda aquela estória da nossa adolescência, quando ela suspirava cada vez que o Tunai cantava "Frisson", dizendo que aquela música era a cara de P.
Hoje mandei uma mensagem para ela, perguntando se o comentário do irmão dela sobre P era aquele mesmo P, enteado de sua irmã.
Ela me confirmou e disse que se separara em 2009 e estava há 10 anos casada com P. Que ele era um amor e ela era apaixonada por ele.
Fiquei super feliz de ouvir esta estória, que para mim parece um amor de novela.
Duas pessoas viveram momentos especiais na adolescência, cada um tomou seu rumo, mas o sentimento decerto ficou só adormecido.
Não sei em que circunstâncias se reencontraram, mas para mim é inevitável imaginar que ao se virem novamente, todo aquele amor vivido há tanto tempo, deve ter trazido lembranças maravilhosas. Sem dúvida, deve ter rolado um "Frisson".
Acho sensacional ver estas estórias em que o amor no final vence, apesar de hoje ser cada dia mais difícil isso acontecer.
No final, B e P tiveram seus destinos unidos novamente, e a gente fica com aquela sensação gostosa de que, afinal, a gente veio nessa vida mesmo é para ser feliz.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

QUEIMANDO CALCINHAS

Em 1968, aquele ano que abalou o mundo, feministas queimaram sutiãs, em protesto pela opressão da qual se diziam vítimas.
A minha estória é um pouco diferente, a começar que não foram queimados sutiãs e sim calcinhas. De opressão essa estória não tem nada e mostra apenas a tentativa absurda de economizar peso, quando se viaja de carona, com uma mochila nas costas.
Acho que foi em 1986, com minha turma de sempre (éramos 4 gurías e 2 caras), que fizemos uma viagem pela Alemanha. Tudo que eu carregava tinha que caber numa mochila grande, ficando de fora só o bedsheet, que usávamos nos albergues e que ia do lado de fora, meio dependurado. Carregar a mochila era dureza, e estávamos a anos luz de distância da invenção da mala com 4 rodinhas, que se move com apenas um dedo.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

INVERSÃO DE VALORES

Acompanhando agora os jogos e todas as reportagens sobre a Copa do Mundo na Rússia, achei estranho o status de verdadeiros deuses que os jogadores têm hoje. No tempo do Mané Garrincha, craque total, acho que o salário mal dava para alimentar as suas inúmeras filhas.
Hoje os caras, com seu talento, conseguem uma ascensão social e financeira, que de outra maneira seria impossível. Acho bacana ver que a maioria deles tirou a família da pobreza e deu conforto principalmente às suas mães batalhadoras. 
Mas o que me causa estranheza é ver a influencia que esses jogadores têm através das redes sociais. Alguns são formadores de opinião, mesmo tendo um nível de instrução baixíssimo. Tudo bem que instrução formal nunca foi sinônimo de sabedoria, mas o mínimo seria bem desejável.
A mídia exalta tanto os jogadores, como verdadeiros heróis (?), que as adolescentes começam a achá-los até mesmo bonitos! 
Talento a parte, Ronaldinho Gaúcho nunca foi padrão de beleza. Por isso meu espanto, quando anos atrás vi meninas se esguelando por ele numa reportagem.

Outra categoria que acredito ter uma atenção exagerada da mídia é a das modelos.
Verdadeiras deusas (ainda que só pele e osso), muitas se negam a sair da cama por menos de USD 10 mil.
Sei que a vida delas não é este mar de rosas das revistas, pois implica em eternas dietas, fotos feitas no frio do amanhecer para pegar a melhor luz do sol, vestir um biquini quando a temperatura está 8 graus...
Mas me pergunto, por quê os salários são tão absurdamente altos para pessoas que tiveram apenas a sorte de ter uma boa genética!!!
Quantos médicos, cientistas que procuram a cura de doenças que melhorarão a vida de milhares de pessoas não têm esse salário?
Quantos professores se dedicam dentro e fora da sala de aula a guiar crianças em seus primeiros anos, em seus primeiros aprendizados e jamais receberão nada que chegue sequer perto do salário de um jogador ou de uma modelo?
Às vezes me pego pensando nas profissões que são extremamente importantes e muito, muito sub-remuneradas. Imagina o que é ser motorista de ônibus numa linha Bangu/Copacabana no verão??? O trânsito, o calor, aquele ruído ensurdecedor do motor ao seu lado...sem falar das eventuais grosserias de  passageiros irritados.
Costumamos só dar valor aos lixeiros quando fazem greve, e a gente se depara com montanhas de dejetos nas ruas. São pessoas que trabalham manuseando material muitas vezes mau cheiroso, ou que não foi descartado corretamente, principalmente  vidro e objetos perfuro-cortantes.

Sei que minha indignação não leva a nada, mas acho que deveríamos, enquanto sociedade, refletir se o que está acontecendo não é uma total inversão de valores.

domingo, 10 de junho de 2018

NUDEZ

Em 1984 fiz minha primeira viagem internacional e a empolgação era dupla. Primeiro, pela oportunidade de conhecer lugares que só via em filmes/livros e depois por estar viajando pela primeira vez totalmente por minha conta, sem as amarras de pai/mãe/irmãos.Viajei com mais 5 colegas de trabalho: eramos 4 moças e 2 rapazes que trabalhavam juntos.
Em Zürich vivi uma situação completamente inusitada. Aproveitando o sol e calor do mês de agosto, fomos tomar sol e nadar à beira do lago. Até aí, tudo normal. Centenas de pessoas faziam a mesma coisa, desfrutando do fim de verão. O que me chamou a atenção, é que as pessoas chegavam no gramado, junto ao lago, tiravam suas roupas e colocavam seus trajes de banho, ali mesmo, na frente de todo mundo. Não havia vestiário, cabine, nada. E não havia qualquer forma de pudor também! Num Brasil onde o topless estava causando certo escândalo à época, me pareceu muito inusitada esta postura tão natural frente a nudez.
Percebi que era um costume local, muito natural, pois vi avós, crianças, mães com carrinhos de bebê, todos, sem exceção, se valendo de tal prática. Ningúem tomava banho de sol ou nadava nu. Apenas trocavam de roupa na frente de todos. Vi executivos que pareciam querer aproveitar sua hora de almoço para um bronzeamento rápido, voltando a colocar seus ternos e voltar para seus escritórios.
Confesso que, no auge dos meus 19 anos, aquilo de certa forma me chocou. Era moderno demais para minha cabeça tupiniquim!
Passados 13 anos, fui à Grécia com E. Em Mykonos alugamos uma scooter e, num dia de sol, mas muito vento friozinho, fomos conhecer a praia Paradise, que havíamos ouvido falar  ser muito bonita. Ao chegarmos lá, constatamos a beleza do local, mas vimos também se tratar de uma praia de nudismo. Era nudismo, mas um nudismo "família": famílias inteiras, de todas as faixas de idade se estendiam sobre a areia. Quando chegamos lá, o vento já amainara e o calor resolvera dar as caras. Como estávamos sem roupa de banho, propus a E. que simplesmente entrassemos no clima local e tirassemos nossas roupas. Meio chocado com a minha proposta, ele se recusou e, sentado sob o guarda-sol, me viu placidamente tirar a roupa e ficar de bruços numa espreguiçadeira, enquanto ele ficava heroicamente "derretendo" dentro de sua calça jeans. Depois começou a relaxar, dizendo que iria tirar uma foto (mas máquinas eram proibidas) e mandar para o meu pai, dizendo: "olha só o que a sua filha anda aprontando na Grécia!". A nudez era uma coisa tão natural na praia Paradise, que a moça que cobrava o aluguel da mesa/espreguiçadeira/guarda-sol, vinha apenas com uma pochete em torno da cintura, onde colocava o dinheiro recebido.
Depois de ver a tranquilidade como crianças e pessoas também muito idosas desfrutavam do dia de sol, E. finalmente resolveu tirar a calça jeans e ficar só de cueca. Falei para  ele que aquilo estava ridículo: ele chamava mais atenção naquele traje do que qualquer outra pessoa nua na praia. Mas não teve jeito, seu pudor foi maior.
Após umas duas horas, resolvemos conhecer a praia Super Paradise, que constava do nosso guia. Deixamos a scooter de lado e fomos a pé. Só um pequeno morro separava as duas praias e fomos caminhando por uma trilha, eu na frente e ele me seguindo. Ao descer na enseada, tomei um susto e freei bruscamente. E. perguntou o que acontecera e, quando se posicionou ao meu lado, viu na enseada uns 300 caras completamente nus. Chegaramos a uma praia de nudismo gay. A nossa chegada também deve ter chamado a atenção deles, pois pareceu-me que 300 pares de olhos nos olhavam curiosamente, se perguntando o que um casal de homem e mulher faziam no local. Perguntei para o E. o que deveríamos fazer então, e ele disse para percorrermos toda a enseada e irmos até a outra ponta, onde havia uma barraca de praia. A gente tomaria uma Coca Cola e daí voltaríamos, caminhando naturalmente, sem demonstrarmos o quanto estávamos surpresos. E assim fomos nós. Ao caminharmos pelas ruas de Mykonos, jantando em pequenos restaurantes nos dias anteriores, já havíamos percebido que a ilha parecia ser um paraíso gay internacional, mas nada me preparara para ver uns 300 homens completamente nus num só lugar!!! Todos eram muito branquinhos, com cara de alemães ou nórdicos. Na verdade, eram cor de rosa, devido as horas de sol inclemente que deviam ter tomado na praia. Mas o que me surpreendeu mais, é que eram completamente depilados. Todos. Apesar do meu ar blasé o meu espanto deveria ser visível, pois E. não resistiu e falou: você nunca viu tanto pinto junto, né? NÃO MESMO!!!

quarta-feira, 2 de maio de 2018

BICHO NA ILHA 1

Na Bahia até os bichos são tranquilos.
Há alguns anos, estava deitada no sofá, assistindo o jornal à noite, quando, pela porta dos fundos, me apareceu um sariguê.
Para quem não conhece, ele é uma espécie de gambá, muito comum na Ilha. Dizem que pode ser bem arisco, quando se sente ameaçado.
Estando sozinha, pensei como eu faria para tirá-lo da sala, caso ele resolvesse adentrar. Já estava na cozinha, na frente da geladeira, e eu ali, paralisada de medo, olhando-o do sofá.
Simplesmente não me levantei, não gritei para assustá-lo, nada.
Só falei: "Ai, ai, ai. Não pode entrar!"
Parece mentira, mas ele olhou para mim, inclinou a cabeça, deu meia volta e saiu. Placidamente....

quinta-feira, 5 de abril de 2018

MALUCO BELEZA

​Um amigo diz que Itaparica deve ter o maior percentual de maluco por metro quadrado!
Não sei se tem o  maior, mas que são muito peculiares, são.
Os malucos da Ilha são conhecidos por todos e são, o que eu costumo chamar, de ​"doidos mansos".

TONINHO sumiu e nunca mais o vi, mas soube que era um doidinho com endereço fixo e era cuidado por uma irmã, que diziam ser enfermeira e que cuidava de mais 4 irmãos, todos esquizofrênicos. Toninho não bebia, mas parava ao seu lado e ficava incessantemente pedindo: "Me dá R$1,00; me paga um guaraná. Me dá R$1,00, me paga um guaraná".

Havia também o GRILO, que nunca vi abordando ninguém; mas sentava-se na Praça da Quitanda e ficava assobiando "cri, cri, cri..." . Apelido perfeito.

ADRIANA é a doidinha internacional da Ilha. Argentina, veio a Itaparica há muitos anos e acabou se apaixonando por um nativo e ficando. Tendo certa condição financeira, viu seu dinheiro e seu amor se esvair e acabou pirando quando o nativo esperto foi embora, após tirar-lhe tudo o que possuía.
                                       
                             (Adriana, quando a vida ainda lhe sorria)

Hoje vive na Praça do Campo Formoso com seus poucos pertences e um gato que arrasta pela coleira. Às vezes cisma de dar banho no felino e o leva para rampa dos pescadores em frente ao Mercado de Santa Luzia. O pobre bichano não quer entrar na água por nada, mas ainda assim ela o arrasta até o mar. Alguns dias aparece na frente da padaria São Jerônimo e tem sempre alguém para lhe pagar um café, um lanche. Pode por vezes ser agressiva, mas já é tão conhecida que ninguém se preocupa quando começa seus xingamentos em espanhol.

O mais famoso doidinho, porém,  faleceu há poucos anos, e era conhecido como ARQUIVO.
Arquivo era almoxarife do Grande Hotel em seus áureos tempos, e sabia a localização de absolutamente tudo, daí seu apelido.
Já o conheci maluco, mas pessoas me disseram que ele só ficou assim depois que chegou um dia em casa mais cedo e pegou a mulher com outro! 
Negro, baixinho (talvez não tivesse mais que 1,55m) de vez em quando aparecia completamente bêbado, ou "em águas", como se fala na Ilha. Já o vi também com o cabelo pintado de azul.
Antigamente às sextas e sábados, a prefeitura promovia uma seresta na praça do mercado e os boxes em volta, transformados em bares, ficavam cheios. Num palanque um cara com um órgão eletrônico pré-histórico desfilava seu repertório de "arrochas" e "sofrências". Uma noite, passando por ali, vi Arquivo e Adriana dançando de rostinho colado! Deve ser a vitória do amor sobre a loucura...
Um amigo, C., dizia que ir à Itaparica e não conhecer o Arquivo, era não conhecer a Ilha. Que Cláudio Neves, o prefeito à época, morria de inveja da popularidade de Arquivo! Era tão querido, que D., sobrinho de C., professor da Unicamp, mandava todo mês um dinheirinho para que C pagasse a cachaça de Arquivo!!!
Em 2007, C. organizou um bloquinho no Carnaval, e saímos da Fonte da Bica e fomos até a Praça da Quitanda atrás de uma bandinha. Lá encontramos Arquivo, e C. não pensou duas vezes: pegou uma cadeira branca dessas de plásticos, colocou Arquivo sentado  e, com ajuda de alguns amigos,  o levantou no alto, desfilando por toda a praça. Arquivo lá de cima jogava beijos, como um grande imperador em seu trono romano!
Vivia sujo, meio bêbado e, de vez em quando, a meninada o pegava a força e o jogava no mar, para dar um banho. Na Bahia é assim: não tem queima de arquivo. Tem é lavagem do Arquivo!!!

terça-feira, 27 de março de 2018

ATENDENDO O PÚBLICO

Comecei minha vida profissional na Varig, trabalhando no salão de embarque. Era o famoso Salão Sul, do antigo Aeroporto de Brasília. Lá eu descobri que gostava muito de trabalhar com gente, de interagir com todo tipo de pessoa. Do salão de embarque passei para o balcão de check-in, mas nos  últimos anos fui para uma área mais técnica, de balanceamento de aeronaves, o que me afastou do público.

Passando no concurso da Caixa, voltei à linha de frente do atendimento, pois logo no mês seguinte a minha admissão, fui fazer o curso de Caixa Executivo. 
Trabalhar no caixa, apesar do risco de perda financeira por uma eventual desatenção, era uma tremenda diversão. Atendia pessoas de todos os tipos e um dia nunca era igual ao outro. Eu adorava!
Fui trabalhar numa agência pequenina, que hoje nem existe mais, a Agência Asa Sul. Lá a clientela era bem conhecida,  por ser uma unidade junto a uma área residencial. Era uma população, em sua grande parte, já idosa, que tinha vindo para cá no início de Brasília, e nós brincávamos dizendo que era uma "agência geriátrica". 
Passei pela surreal situação de ter que apartar uma discussão entre alguns clientes que disputavam quem eu iria atender primeiro, pois um alegava ter mais de 65 anos, o outro, além de idoso, dizia ser portador de cardiopatia, um terceiro alegou não ter mais um rim...

Havia ali os clientes que já nos eram familiares, como o Sr. Alfredo que todo santo dia aparecia. Ele entrava pela porta da W2, atravessava a agência, tomava um café, lia o jornal, e saía pela W3. Fazia isso várias vezes por dia e uma vez resolvemos contar quantas "visitas" receberíamos naquele único expediente. Foram 8!
Além dele, tinha o Sr. Valetim, que talvez tenha sido o senhorzinho mais elegante que eu atendi em todos os meus anos de CEF. Cabelo branquinho impecavelmente penteado, sempre de camisa polo e calça social, todo arrumadinho.
Sr. Brasileiro, D. Selma e todas as suas filhas, eram clientes antigos e ele, em especial, nosso companheiro de boteco, quando às sextas-feiras começávamos nosso  final de semana num "pé sujo" que ficava ao lado.

Depois de 4 anos na Asa Sul, pintou uma oportunidade de permuta com um colega da Agência Aeroporto. Eu já passara 6 anos deliciosos trabalhando ali na Varig e voltar para aquele lugar onde  meus mais queridos amigos ainda estavam era irresistível.
Lá eu descobri que o atendimento ao público tem lá suas graças. Diariamente o boy do posto de gasolina chegava com um monte de cheques. Em cada um tínhamos que bater 2 carimbos, e ainda anotar o número da conta de depósito, caso já não viesse preenchido. Isso demandava tempo e o Ivanildo sempre puxava papo. 
O primeiro comentário dele sobre a minha figura foi: "você tem bem pouquinho cabelo, né?". Frente a esta constatação óbvia, só pude concordar. Aí ele falou de um shampoo novo que tinha acabado de ser lançado (Garnier Fructis, nunca esqueci!) e que ele estava usando. Passou a mão nos cabelos, balançou a cabeça e eu pensei comigo mesma: se for para o meu cabelo ficar igual ao dele, é melhor eu nem experimentar esse shampoo!!!!

Num outro dia reparei que ele não parava de olhar para o meu crachá, onde a minha foto trazia os meus cabelos compridos, de quando eu entrara na Caixa. Agora eu estava com o cabelo curtíssimo, com o corte que chamávamos à época "Joãozinho". Ele olhou para mim, para o crachá, olhou de novo e disse:
"Os cabelos são a beleza da mulher, né?"...
                                             (a foto do crachá)

Poucos dias depois, lá estava o Ivanildo de novo no meu guichê. Enquanto eu carimbava a tonelada de cheques do depósito dele, equilibrando os óculos na ponta do nariz, ele me sai com essa: "óculos enfeia tanto, né?"
Aí não aguentei: "Pô, Ivanildo...um dia desses você falou que o meu cabelo é pouco, que tinha que ser comprido para ser bonito; agora falou dos meus óculos, acho que amanhã você vai sugerir que eu coloque um aparelho nos dentes!".

segunda-feira, 26 de março de 2018

ARMENGUE

Hoje recebi um zap de um amigo, dizendo que descobrira por acaso meu blog na internet.
Eu  nem lembrava mais dele! Do blog, não o amigo, que é queridíssimo e tem o excelente blog Janelas & Portas (janelaseportas.blogspot.com.br), contando suas aventuras por lugares incríveis que viajou.
Fui reler alguns textos, e me deparei com  COISAS QUE SÓ SE FALAM EM ITAPARICA.
Terminei essa crônica no dia 7/6/2015, dizendo que minha palavra do "baianês" predileta era o ARMENGUE.
Depois de 37 anos frequentando a Bahia, somente ano passado fiquei sabendo, através do meu vizinho Jorge, a origem de tal vocábulo.
Vamos à estória...
Na Bahia há muita exploração de petróleo e gás e nos anos 50 foram importados alguns equipamentos dos Estados Unidos. Os engenheiros americanos que vieram efetuar a montagem e treinar os operadores logicamente perceberam que não seria preciso utilizar os produtos químicos que impediriam que o gás/petróleo congelasse nos canos. Por conta disso, algumas adaptações (arrangements) foram necessários.
Rapidamente o baiano logo transformou o arrangement em ARMENGUE.
Até hoje a palavra é utilizada no sentido de se dar um jeitinho numa coisa que não está funcionando a contento, quebrar um galho com uma gambiarra ou algo que o valha. 

Baianês também é cultura!