quarta-feira, 25 de março de 2020

MUDANÇA DE HÁBITOS

A quarentena do corona vírus nos impôs mudança de hábitos. 
Um deles, para mim, foi me adaptar a realização de atividade física dentro de casa. Minha enteada é personal trainer e montou uma série de exercícios para membros superiores e inferiores, que eu vou alternando. Sempre achei um saco a tal da musculação e assim em casa, sem os equipamentos necessários, acho mais chato ainda. Meus halteres são 2 garrafas de 600ml de Coca-Cola, cheias de água. O "colchonete" é uma canga sobre o tapete.
Apesar de tudo, não abri mão do meu exercício predileto: a corrida.
Descobri que se eu deixasse a porta do quarto, do corredor, da cozinha abertas, conseguiria uma micro (talvez nano!) pista de corrida. São 24 lajotas de 0.80 cm, o que dá pouco mais de 19 metros. Correr 10 minutos por esse trajeto, apesar das zilhões de voltas, me dá mais prazer do que os outros 30 de ginástica localizada.
Um amigo, sabendo do minha "academia" doméstica, comentou: 
"Caramba, para quem já fez uma meia maratona num dos percursos mais bonitos do mundo (RJ) e uma das corridas mais charmosas existentes (Paris-Versalhes), você caiu muito, hein?"
Pois é...que decadência!

domingo, 22 de março de 2020

AINDA SOBRE O CORONA...

Às vezes eu tenho a impressão de que tudo que tocamos não está só com o vírus, mas sim com um tipo qualquer de material radioativo que vai nos contaminar a todos! Não adianta manter distância. Paranóia de quem viveu Chernobil, o Césio 137...

Há anos eu, meus irmãos e sobrinhos temos uma escala para que todo dia tenha alguém lanchando à noite com meus pais. Era uma maneira de fazer com que eles sempre se sentissem cuidados. Agora já nem sei se isso é válido. Estive lá há 2 dias e só irei novamente depois de amanhã. Me sinto extremamente culpada. Parece que os estou abandonando na mão da cuidadora.
Não tenho medo do vírus por mim, mas morro de medo por eles. Tenho medo que esse vírus leve meus Passarinhos embora. Eles já estão tão idosos, frágeis, vulneráveis.
Uma vez me disseram que o pior sentimento que uma pessoa pode ter é o medo. Pior que o ódio, o rancor. E vejo agora que é verdade, pois o medo está sempre associado a alguma coisa externa, a qual você não tem controle. O medo é paralisante.

A solidão não me abate. Morei 25 anos só e sempre muito feliz comigo mesma. Tenho conseguido me manter ocupada com mil coisas que tenho para fazer, mas, às vezes, me pego pensando em coisas práticas do dia-a-dia, as quais estamos tão acostumados que nem percebemos. Um exemplo é a limpeza aqui do prédio. Essa equipe que limpa o condomínio tem tanto direito de ficar em casa quanto eu. E se isso acontecer? Eu e meu vizinho vamos nos coordenar para cada dia um limpar o hall do nosso andar? Vamos ter que descer para colocar o lixo no container, varreremos nossas vagas na garagem?
Há um exército de formiguinhas que nos proporciona conforto, sem que nem ao menos nos demos conta disso...

sábado, 21 de março de 2020

PRISÃO DOMICILIAR

Enfim estamos todos em "prisão domiciliar". 
O corona vírus nos deixou em quarentena e, apesar da resistência de alguns, está servindo para repensarmos a maneira como vivemos e tocamos nosso dia-a-dia.
A privação do direito básico de ir e vir não me afeta negativamente. Pelo contrário: ficar em casa é um prazer. 
A agenda atribulada entre cuidados com meus pais, idas à farmácia, ao mercado, o grupo de costura, a corrida matinal, eventual "socorro" na busca das netas na escola ou num pernoite para que os pais delas possam se divertir um pouco...tudo faz com que o tempo fique corrido, e muitas vezes ser obrigada a ficar em casa parece uma benção.
Os livros cobrem a estante, a lista na Netflix só aumenta e o ateliê está entupido de tecidos a serem transformados em roupinhas para doação.
De repente me vi com tempo até para abrir o piano, que estava fechado desde o ano passado. 
O armário do corredor, com a rouparia de cama e banho, foi arrumado. 
A gaveta das panelas e o armário de louças ganhou nova configuração.

As notícias tristes não param de chegar. O número de mortos na Itália já supera o da China. O Ministro afirma que o sistema de saúde entrará em colapso no fim de abril, como se já não estivesse há muito tempo...
Mas, no meio de tudo isso, coisas boas acontecem e isso anima o meu lado de otimista inveterada, de carteirinha. Aquela que era chamada no trabalho de Pollyana, porque eu SEMPRE acho que tem alguma coisa boa para se tirar de toda situação.
Num grupo de zap do meu prédio, alguém sugeriu que, se você tem alguma pessoa do seu relacionamento que trabalhe como autônomo, como uma manicure, por exemplo, que não deixe de remunerá-la nesse período em que tudo está parado. Essa despesa já faz parte do seu orçamento, não vai impactar em nada. Mas para quem só recebe se trabalhar, esse dinheiro pode ser a diferença entre colocar comida na geladeira ou não. Achei legal que alguém mandasse uma mensagem com esse teor, que tivesse a preocupação com quem te ajuda e muitas vezes passa invisível por nossos dias. Alguém se preocupou com o outro, e isso é bacana demais.
Na TV vemos casos de pessoas que se propõem a ir ao mercado/farmácia por aqueles que fazem parte dos grupos de riscos e devem ficar recolhidos.
Um médico ofereceu seus serviços aos vizinhos para tirar dúvidas ou qualquer outro atendimento que ele possa efetuar, sem custo algum.
Hoje ouvi passarinhos cantando através da janela do banheiro, coisa que nunca tinha acontecido antes. Será que o barulho do dia-a-dia me impedia?
Por outro lado, ainda pensando em bichinhos, me pergunto quem alimentará os patos, tartarugas, peixinhos que vivem no lago aqui em frente de casa, já que o parque está fechado. Eles são tão paparicados por todos os frequentadores, em especial as crianças, com fartura de pão, frutas, legumes, que não sei se ainda têm capacidade de caçar seus próprios alimentos.... 
Um amigo, meio melancólico, escreveu dizendo que entupira os armários de provisões, para depois se tocar que nem sabe cozinhar...Pelo menos nesse quesito eu me salvo, pois E. é um cozinheiro de mão cheia, enquanto eu só sei fazer doces. Mas quem é que aguenta viver só de açúcar??

Mesmo com todo o otimismo de que tudo passará, às vezes tenho vontade de dormir e só acordar em setembro, que dizem que é a data provável de diminuição do surto. É porque meu coração já não agüenta ver tanta notícia triste...
Há 3 dias falei com uma prima que é casada com um italiano e está há quase 20 anos na Sardenha. Apesar de distante do epicentro da epidemia italiana, ela relatou o caos que está no país: já não existem caixões suficientes e espaço nos cemitérios. Os pacientes morrem sozinhos nos hospitais, pois a família não pode visitá-los. Ainda por conta disso, é zero a assistência espiritual nesse momento, pela impossibilidade dos padres adentrarem as enfermarias para ministrar os últimos sacramentos. Para um país tão católico quanto a Itália, não receber sequer a unção dos enfermos deve ter um efeito moralmente devastador.
Me sinto como num daqueles filmes-catástrofe hollywoodianos, onde um vírus alienígena ameaça destruir o planeta.
Acho que nunca antes um evento desse magnitude se abateu sobre a humanidade. A peste na Europa Medieval dizimou milhões, bem como a Gripe Espanhola no início do século XX. Mas acredito que, pela primeira vez, o mundo inteiro está em quarentena. Ruas, avenidas, parques, tudo vazio. 
Acho que o importante é manter a serenidade e não entrar em pânico.
Para minimizar essa sensação de fim de mundo, adotei uma política de "avestruz": escolhi um filme bem bobinho para dar boas risadas. E viva a Netflix!

A COROA E O CORONA

O corona vírus chegou com força e, depois do que parecia um problema restrito à China, vemos a pandemia se espalhar pela Itália, Espanha,  até finalmente nos atingir.
Junto com todas as mensagens que chegam pelo celular, reportagens na TV e em todos os tipos de mídia, não só o corona, mas antes disso, a campanha de vacinação contra a gripe, me fez perceber que agora me tornei oficialmente IDOSA.
A vacina, que antes só era aplicada gratuitamente nos postos de saúde para maiores de 65 anos, esse ano veio com uma tabela de agendamento em que os de 55 anos ou mais, deverão comparecer a partir de 9 de maio.
A taxa de mortalidade do corona, também para os maiores de 50 anos, eleva-se de 0,4% para 1,3%.
Assim, sem mais nem menos, a exatos 45 dias de completar 56, me vi subitamente "envelhecida". Aquela pessoa que eu vejo no espelho, que aparentemente está em toda sua plenitude física e mental, para o mundo inteiro já está na linha descendente...
Não adianta a gente se sentir saudável, correr todo dia pela manhã, carregar com facilidade o peso das compras da sua casa, dos seus pais....você envelheceu! 
Antigamente, o único sinal de que a idade chegara, eram alguns fios brancos que insisto em não tingir, para horror da minha mãe. 
Qualquer dia desses terei direito a estacionamento preferencial e fila exclusiva. 
Alguma vantagem haveria de ter!

quarta-feira, 11 de março de 2020

O PARDAL

No início do verão, estávamos aguardando a partida do ferry da 13h para Itaparica, quando reparei num passarinho no teto. 
O pé direito do terminal é bem alto, talvez uns 5 ou 6 metros, e o pardalzinho se balançava lá no alto.
A princípio, E. , que estava comigo, imaginou que ele estivesse fazendo um ninho, pois víamos um fiapinho junto a ele. Mas, olhando atentamente, percebi que na verdade ele estava preso por uma das patinhas.
O bichinho se revirava, tentava se soltar e nada. Em um momento, acho que vencido pelo cansaço, chegou a ficar de ponta cabeça, seguro apenas pelo fio que o prendia.
Felizmente, acho que após recuperar o fôlego, começou novamente sua batalha para se soltar.
Percebi nesse momento que não só eu, mas inúmeras pessoas acompanhavam seu esforço, impotentes em ajudá-lo, devido a altura do teto.
Depois de muito se retorcer, finalmente o pequenino pardal se soltou voando para longe e, nesse momento, foi um alvoroço só. As pessoas gritaram, bateram palmas, sorriram!
Fiquei feliz de ver tal demonstração pois, enquanto as pessoas se alegrarem com a vitória de um simples passarinho, é sinal que a humanidade ainda tem jeito, e não estamos de todo perdidos. Vi minha fé restaurada.