quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

GENEROSIDADE

Natal se aproximando e a generosidade das pessoas aflora. É uma pena que não se veja durante o ano inteiro, os corações tão abertos como agora. O povo brasileiro é caridoso por natureza, e acho que é só uma questão de incentivo. Ontem no noticiário houve uma reportagem sobre trabalho voluntário, que vem felizmente aumentando em nosso país. As mulheres são maioria, ainda, mais a gratidão pela sensação de felicidade que o voluntariado traz, permeia homens e mulheres que se dedicam, de alguma maneira, a abrir mão de um pouco do seu tempo para ajudar o outro.
Muitas vezes a generosidade vem também através da ajuda financeira que, a primeira vista, parece ser mais fácil de se exercitar, pois não demanda tempo e dedicação. Mas não é menos importante, pois vemos pessoas que já têm tão pouco, doando, repartindo.

Uns dois anos antes de me aposentar, eu fazia parte de uma comissão que cuidava da doação de material reciclável, basicamente papel, para uma associação de catadores. Descobrimos que a empresa que comprava dos catadores, pagava bem pouco pelo material, pois ele vinha misturado. Não havia uma separação prévia por tipo (jornal, A4, papelão) e os papeis muitas vezes chegavam grampeados, com clipes, etc. Recebendo o material separado, o valor pago por kg aos catadores mais do que dobrava. Em conversa com a presidente da associação, soubemos que eles não faziam a separação porque era difícil o deslocamento até os 3 prédios da CEF, onde a maior parte do material estava. Pensando numa maneira de solucionar essa questão, perguntei a ela se a doação de uma bicicleta resolveria o problema. Os catadores poderiam se deslocar de casa até os prédios, onde conseguimos um espaço na garagem para que fizessem a separação.
Acertado esse ponto, partimos para uma campanha de arrecadação que nos permitisse adquirir as bicicletas. Falei com meu Superintendente, que autorizou que eu mandasse um email às agências vinculadas a nós, bem como a cada empregado dessas unidades. Na época éramos uns 900 empregados e imaginei que, se cada empregado doasse um único real, conseguiríamos adquirir 3 bicicletas, permitindo a ida aos 3 prédios da CEF.
Redigi o email, expliquei o caso e pedi a colaboração dos colegas empregados. A resposta da equipe foi surpreendente: já no primeiro dia havíamos arrecadado o suficiente para comprar as 3 bicicletas. Mandei um email emocionado agradecendo a participação, por ver que eu fazia parte de uma equipe para lá de generosa! Acho que pouquíssimos foram aqueles que doaram apenas R$1,00. Apareceram doações de R$50, R$100 e até mesmo um cliente da Agência Guará, que ouvira um empregado comentando, doou. Ele era dono de uma loja de bicicletas e foi lá na Superintendência levar uma bike novinha. Teve gerente que, quando soube que faltava metade para conseguirmos fechar o valor para mais uma bicicleta, me ligou dizendo que eu poderia comprar, que ele estava transferindo o dinheiro. No total conseguimos 7 bicicletas, que entregamos à dona Socorro, presidente da associação. Foram 900 pessoas se empenhando para que um grupo de pessoas totalmente desfavorecidas conseguisse ter uma renda um pouco melhor. 
O coração da gente se aquece quando vê coisas assim. Me lembro de ter pensado, quando em 24h batemos nossa meta de adquirir 3 bikes, "que time maravilhoso é esse que eu faço parte". 
Infelizmente, cerca de um mês depois, dona Socorro me ligou, aos prantos, dizendo que um dos catadores trocara uma das bicicletas por crack. Uma pena. Mas a gente sabia que outras 6 pessoas estavam contribuindo para a comunidade em que viviam, aumentando sua fonte de renda, e isso fora possível porque alguns de nós abrira seus corações para ajudar o próximo. A sensação de se saber agente de uma mudança transformadora na melhoria de vida de alguém é impagável e com isso se ganha muito mais do que dá.