domingo, 25 de abril de 2021

UM MÊS SEM MEU PASSARINHO

Ele partiu aos 87 anos, então teve tempo de ter sucesso profissional, formar uma família, ver os filhos e netos se tornarem pessoas de bem. Sou imensamente grata a Deus por ter tido a oportunidade de conviver com ele por 56 anos. Sempre foi um pai amoroso, presente, provedor. Teve uma época em que ele tinha 3 empregos, que era para poder nos dar tudo o que ele gostaria. E nem por isso foi um pai ausente. 

No começo de Brasília, a falta de luz era constante. Quando isso acontecia, íamos os 3 e mais ele para dentro da rede, que eu nem sei como  ela aguentava! E ali ele ficava fazendo bichinhos com as mãos, cuja sombra a vela projetava na parede.

Durante a semana estava na Comissão de Obras do Exército, mas na quarta-feira à tarde não tinha expediente. Então ele dava aula na UnB nesse dia e no sábado de manhã.

Tinha um escritório no Conjunto Nacional com mais dois amigos e lá fazia seus projetos à noite, às vezes no sábado à tarde. E quando era sábado, às vezes nos levava. Eu adorava rodar na cadeira alta da prancheta e ficar lá desenhando. Depois ele levava a gente numa lanchonete chamada Snob, que ficava no térreo, de frente para o Teatro Nacional. E lá a gente se fartava de comer queijadinha com guaraná....





sábado, 17 de abril de 2021

A SAUDADE QUE MEU PASSARINHO DEIXOU

 O dia que fomos contar à minha mãe que seu Passarinho voara, encontramos na portaria com a Viviana, que há uns 30 anos trabalha na casa da vizinha. Sabendo que meu pai estava internado, ela perguntou por ele. Caiu no choro quando soube do seu falecimento, comentando o quanto gostava dele.

Essa semana fiquei até mais tarde na casa da minha mãe e acabei encontrando o Sr. Ronaldo, zelador da noite. Ele veio falar comigo, dizendo do seu pesar e lembrando que meus pais sempre interfonavam, por volta de 9h, para ele ir pegar uma fatia de bolo, um sanduíche...
Mais uma vez pude constatar o carinho que as pessoas sentiam pelo meu pai. E aquece o coração ver que este sentimento vinha também das pessoas mais simples que o cercavam. Morando por 41 anos na 309, ali ele passou quase metade de toda a sua vida. Por isso não me surpreende vê-lo querido pela Viviana, Sr. Ronaldo, Carlão, o frentista do posto, Cacau, dono da borracharia, Jarbas, do quiosque de chaves e alicates, Sr. Lima, sapateiro, e até o Vascaíno, que cuida dos carros no estacionamento do Pão de Açúcar, bem ao lado do seu bloco. Cada um que vem falar comigo, me traz lágrimas aos olhos, mas é como diz o ditado: "Saudade é o preço que se paga por viver com pessoas incríveis."

O ALUNO E O PROFESSOR

Enquanto morava com meu pai, sempre vi alunos dele indo almoçar lá em casa. Um especial ficou para sempre unido à vida da minha família. Francisco Damasceno era de uma família simples da Ceilândia, criado pela mãe. Sempre estudou em escola pública e passou no vestibular da UnB. Foi aluno do meu pai na graduação e se tornaram amigos. Tanto que quando ele resolveu fazer mestrado, conseguiu convencer meu pai a fazê-lo também, apesar de mais de 30 anos de formado e 50 de idade. E lá foi meu pai se embrenhar nos livros e projetos com o Chico. Se empolgaram tanto, que acabaram escrevendo um livro, que hoje é adotado em várias faculdades de Tecnologia. Um dia o Chico partiu, foi fazer Doutorado. E quando voltou, tornou-se professor do Departamento de Engenharia Elétrica, ao lado do seu querido Mestre Wilson. O menino simples da Ceilândia, chegou a ser chefe do Departamento. E nesses anos todos, mesmo depois de aposentado, meu pai nunca perdeu contato com o Chico. Estavam sempre se falando. Ontem quando liguei para avisar do vôo do meu Passarinho, Chico atendeu o telefone aos prantos. Tinha acabado de saber pela cunhada dele, que trabalha com minha irmã. Aí ficou ele chorando de um lado, eu chorando do outro. Falei que meu pai o queria como a um filho, e ele disse que o Mestre Wilson tinha sido muito mais que um pai para ele. Que quando liguei, ele estava se preparando para ir para o prédio do meu pai, saber notícias da minha mãe, pois o telefone não atendia.




Meu pai tocou a vida de muitos alunos, pois era o professor homenageado nas formaturas, quase todo ano. O Chico foi, talvez, o mais tocado por ele. Ele servia de inspiração para jovens iniciando sua vida acadêmica, e tinha um baita orgulho disso.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

O BILHETE

 Hoje mexendo numa papelada do meu Passarinho, achei um bilhete que ele guardou por 65 anos. Numa cédula de 2 cruzeiros, minha mãe, ainda sua namorada, escreveu: "Wilson, quando estiveres em dúvida, siga seu coração. Penha 23/08/1956." O bilhete estava junto à certidão de casamento, às certidões de nascimento dos 3 filhos, o convite da sua formatura no IME...

Naquela pasta cinza, em cuja capa estava escrito DOCUMENTOS IMPORTANTES, eu encontrei um bilhete de amor.