terça-feira, 27 de março de 2018

ATENDENDO O PÚBLICO

Comecei minha vida profissional na Varig, trabalhando no salão de embarque. Era o famoso Salão Sul, do antigo Aeroporto de Brasília. Lá eu descobri que gostava muito de trabalhar com gente, de interagir com todo tipo de pessoa. Do salão de embarque passei para o balcão de check-in, mas nos  últimos anos fui para uma área mais técnica, de balanceamento de aeronaves, o que me afastou do público.

Passando no concurso da Caixa, voltei à linha de frente do atendimento, pois logo no mês seguinte a minha admissão, fui fazer o curso de Caixa Executivo. 
Trabalhar no caixa, apesar do risco de perda financeira por uma eventual desatenção, era uma tremenda diversão. Atendia pessoas de todos os tipos e um dia nunca era igual ao outro. Eu adorava!
Fui trabalhar numa agência pequenina, que hoje nem existe mais, a Agência Asa Sul. Lá a clientela era bem conhecida,  por ser uma unidade junto a uma área residencial. Era uma população, em sua grande parte, já idosa, que tinha vindo para cá no início de Brasília, e nós brincávamos dizendo que era uma "agência geriátrica". 
Passei pela surreal situação de ter que apartar uma discussão entre alguns clientes que disputavam quem eu iria atender primeiro, pois um alegava ter mais de 65 anos, o outro, além de idoso, dizia ser portador de cardiopatia, um terceiro alegou não ter mais um rim...

Havia ali os clientes que já nos eram familiares, como o Sr. Alfredo que todo santo dia aparecia. Ele entrava pela porta da W2, atravessava a agência, tomava um café, lia o jornal, e saía pela W3. Fazia isso várias vezes por dia e uma vez resolvemos contar quantas "visitas" receberíamos naquele único expediente. Foram 8!
Além dele, tinha o Sr. Valetim, que talvez tenha sido o senhorzinho mais elegante que eu atendi em todos os meus anos de CEF. Cabelo branquinho impecavelmente penteado, sempre de camisa polo e calça social, todo arrumadinho.
Sr. Brasileiro, D. Selma e todas as suas filhas, eram clientes antigos e ele, em especial, nosso companheiro de boteco, quando às sextas-feiras começávamos nosso  final de semana num "pé sujo" que ficava ao lado.

Depois de 4 anos na Asa Sul, pintou uma oportunidade de permuta com um colega da Agência Aeroporto. Eu já passara 6 anos deliciosos trabalhando ali na Varig e voltar para aquele lugar onde  meus mais queridos amigos ainda estavam era irresistível.
Lá eu descobri que o atendimento ao público tem lá suas graças. Diariamente o boy do posto de gasolina chegava com um monte de cheques. Em cada um tínhamos que bater 2 carimbos, e ainda anotar o número da conta de depósito, caso já não viesse preenchido. Isso demandava tempo e o Ivanildo sempre puxava papo. 
O primeiro comentário dele sobre a minha figura foi: "você tem bem pouquinho cabelo, né?". Frente a esta constatação óbvia, só pude concordar. Aí ele falou de um shampoo novo que tinha acabado de ser lançado (Garnier Fructis, nunca esqueci!) e que ele estava usando. Passou a mão nos cabelos, balançou a cabeça e eu pensei comigo mesma: se for para o meu cabelo ficar igual ao dele, é melhor eu nem experimentar esse shampoo!!!!

Num outro dia reparei que ele não parava de olhar para o meu crachá, onde a minha foto trazia os meus cabelos compridos, de quando eu entrara na Caixa. Agora eu estava com o cabelo curtíssimo, com o corte que chamávamos à época "Joãozinho". Ele olhou para mim, para o crachá, olhou de novo e disse:
"Os cabelos são a beleza da mulher, né?"...
                                             (a foto do crachá)

Poucos dias depois, lá estava o Ivanildo de novo no meu guichê. Enquanto eu carimbava a tonelada de cheques do depósito dele, equilibrando os óculos na ponta do nariz, ele me sai com essa: "óculos enfeia tanto, né?"
Aí não aguentei: "Pô, Ivanildo...um dia desses você falou que o meu cabelo é pouco, que tinha que ser comprido para ser bonito; agora falou dos meus óculos, acho que amanhã você vai sugerir que eu coloque um aparelho nos dentes!".

segunda-feira, 26 de março de 2018

ARMENGUE

Hoje recebi um zap de um amigo, dizendo que descobrira por acaso meu blog na internet.
Eu  nem lembrava mais dele! Do blog, não o amigo, que é queridíssimo e tem o excelente blog Janelas & Portas (janelaseportas.blogspot.com.br), contando suas aventuras por lugares incríveis que viajou.
Fui reler alguns textos, e me deparei com  COISAS QUE SÓ SE FALAM EM ITAPARICA.
Terminei essa crônica no dia 7/6/2015, dizendo que minha palavra do "baianês" predileta era o ARMENGUE.
Depois de 37 anos frequentando a Bahia, somente ano passado fiquei sabendo, através do meu vizinho Jorge, a origem de tal vocábulo.
Vamos à estória...
Na Bahia há muita exploração de petróleo e gás e nos anos 50 foram importados alguns equipamentos dos Estados Unidos. Os engenheiros americanos que vieram efetuar a montagem e treinar os operadores logicamente perceberam que não seria preciso utilizar os produtos químicos que impediriam que o gás/petróleo congelasse nos canos. Por conta disso, algumas adaptações (arrangements) foram necessários.
Rapidamente o baiano logo transformou o arrangement em ARMENGUE.
Até hoje a palavra é utilizada no sentido de se dar um jeitinho numa coisa que não está funcionando a contento, quebrar um galho com uma gambiarra ou algo que o valha. 

Baianês também é cultura!