Este mês meu pai completou 82 anos. É engraçado como, com o passar do tempo, a gente se torna meio "pai" dos nossos pais.
Aos 20 e poucos anos, um cliente da agência em que eu trabalhava disse que me vira, no fim de semana, com o meu "esposo". Sempre saí de braço dado com ele, desde menina. Hoje em dia, percebo que estes braços entrelaçados são muito mais para apoiar a ele, do que a mim.
Meu pai trabalhava muito quando a gente era criança. Vindo de uma família simples, queria deixar alguma coisa pros seus meninos. Saía à noite de onde morávamos na Asa Sul para dar aula na Escola Técnica, em Taguatinga; tinha um escritório com mais 3 engenheiros amigos, no Conjunto Nacional; dava aulas na UnB, inclusive aos sábados de manhã.
Mas nem por isso foi um pai ausente. Pelo contrário.
Lembro das manhãs de domingo quando corríamos para a cama dele e nos escondíamos sob os lençóis. Ele vinha pelo corredor, falando com a minha mãe: "onde estão os meninos?", e ela entrava no jogo, dizendo não saber. Nós ríamos sob as cobertas, na expectativa da chegada dele, quando levantaria os lençóis e nos mataria de cócegas!
No início de Brasília faltava muita luz; quase toda noite. E aí não tinha dúvida: ele ia para uma rede verde que ficava dependurada no quarto que virara escritório dele e colocava-nos (os 3!) para dentro. Não sei como a rede suportava tanto peso, apesar de sermos pequeninos...Ele ficava lá contando piadas para gente, fazendo bichinhos com a mão à sombra das velas. Só saíamos de lá depois que a luz voltava.
Às vezes no sábado à tarde, depois de ter dado aula pela manhã, ele ainda ia para o escritório fazer algum projeto. Então nos levava com ele. Eu adorava sentar num banco alto que tinha junto a uma prancheta, e ficava desenhando até a hora de ir embora. Fazíamos sempre um pit stop numa lanchonete chamada "Snob", que vendia as melhores queijadinhas de Brasília.
À noite, de vez em quando, íamos a pé até a Dom Bosco e o cardápio não variava: meu irmão pedia pizza, eu, palmier, e minha irmã mil folhas.
Nos domingos não havia muito o que se fazer na cidade, se o dia amanhecia chovendo. Então ele chamava minha mãe, colocava nós 3 no banco traseiro de um fusca azul, e íamos passear no Lago. Naquela época não havia nenhuma ponte e era preciso dar a volta pelo balão do Aeroporto.
Nas férias íamos para o Rio, e para desespero da minha mãe, que queria chegar logo, ele parava a cada quilômetro: para tirar foto, comer pão de queijo, deixar os meninos fazer xixi...
Minha tia morava na General Urquisa, bem em frente à Praça Antero de Quental e, enquanto ela saía de férias e viajava para outros lugares, era no apto dela que ficávamos. Lembro de ficar deitada, e da janela conseguir ver o Redentor.
Naquela época estava sendo construído um emissário, que eu não tinha idéia do que fosse, mas sabia apenas que era alguma coisa relacionada a esgoto. As praias estavam horríveis, por isso saíamos do Leblon todo dia para fazer farra em São Conrado, onde a água ainda estava limpa.
Era uma operação de guerra. São Conrado não tinha nada, além do Hotel Nacional, redondinho nos olhando.
Por conta disso, minha mãe levava sanduíches e uma gigantesca garrafa de suco de uva. Não dava para sair com 3 meninos sem levar um farnel!
Na minha infância não tinha este cerco ao cigarro, e eu achava ótimo quando ele me dava $ para ir à banca comprar Hollywood (com filtro!) e a revista Manchete. Invariavelmente o dinheiro era muito superior à despesa, só para na volta ele poder dizer: fica com o troco, para tomar um sorvetinho*.
(*até hoje, quando viajo, ele me dá R$100 num envelope, em que está subscritado: Para Gina, sorvetinho do Papito)
Casado e com 3 filhos, era proprietário de um fusca. Quando partiu para o segundo carro da família, ligou para minha mãe e disse que era para ela descer conosco: ele tinha comprado outro carro. Ficamos debaixo do bloco ansiosos. E aí ele apareceu com um SPII marrom metálico!
A fúria da minha mãe era imensa: como ele, com 3 filhos, comprava um carro que só tinha 2 lugares????
A fúria da minha mãe era imensa: como ele, com 3 filhos, comprava um carro que só tinha 2 lugares????
Mas não teve jeito. A paixão por carros sempre foi grande, e teve Karman Ghia vermelho, Puma branco, Puma prata, Puma dourado, Miúra, MX3...
Para aplacar a ira da minha mãe, ele trocou o Fusca, e deu a ela uma Variant. Nossa! Quanto conforto! Agora íamos pro Rio dormindo! Saíamos de madrugada, o banco de trás era baixado, e um colchonete estendido para os pirralhos dormirem.
Já morando em Manaus, ele teve um Puma conversível. Minha irmã fazia o 3º ano de manhã, e à tarde ia para um cursinho preparatório para o vestibular. Ele ficava bem próximo a melhor sorveteria da cidade, a Ziza´s. Quando o Puma apontava na rua, alguma menina desavisada suspirava, esticando o pescoço para ver quem era o playboy chegando. A expectativa durava segundos, até que alguém dizia: não se empolga não, que é só o pai da Wilza....
E lá vinha ele, com sua barriguinha atrás do volante.
Quando os netos nasceram, "vô Isso" se tornou mais babão ainda por crianças. Flávia fazia dele gato e sapato. Montava, literalmente, em suas costas, e saía passeando pelo tapete.
Quando minha cunhada ficou grávida, ele se lamentou para minha mãe, dizendo que eu seria a única filha que não lhes daria netos.
Retruquei que, mesmo se um dia tivesse filhos, eles seriam netos bastardos, pois não tinha a menor vontade de me casar.
A resposta dele foi bem prática: não existe isso de netos bastardos. Netos são netos e pronto.
Como Botafoguense doente, tentava fazer a cabeça de todos os filhos, sobrinhos, netos que nasciam. Minha sobrinha não tinha nem um ano ainda, e já possuía o uniforme completo do Glorioso, com direito a fitinha preto+branca na cabeça, para combinar.
Em 1989, ao chegar na garagem, ouvi os gritos do meu pai (que mora no 5º andar) e disse a uma amiga que me acompanhava: Botafogo foi campeão! Ele não estaria assim por qualquer outro motivo. Depois de 21 anos, eu, meu irmão, meus primos, e todos aqueles que ele "doutrinara" para serem botafoguenses, finalmente conseguimos ver nosso time campeão.
Na UnB, todo semestre era o professor homenageado pela turma, e acho que isso dava a ele uma felicidade imensa, pois até hoje diz que tinha um prazer enorme em ensinar.
De vez em quando ele convidava um aluno para almoçar. Na maioria das vezes era algum japonês com óculos fundo de garrafa. Meu pai devia ter o maior percentual de aluno feio por metro quadrado! Até que um dia apareceu um deus grego, e eu lá, com uns 17 anos, toda descabelada, pois já nem ligava quando ele levava alguém...vontade de me enfiar num buraco!
De vez em quando ele convidava um aluno para almoçar. Na maioria das vezes era algum japonês com óculos fundo de garrafa. Meu pai devia ter o maior percentual de aluno feio por metro quadrado! Até que um dia apareceu um deus grego, e eu lá, com uns 17 anos, toda descabelada, pois já nem ligava quando ele levava alguém...vontade de me enfiar num buraco!
A mania de ter sempre um livro comigo eu peguei dele. Na estante do corredor havia muitos livros e eu achava linda uma coleção de uns 18 volumes com toda a obra do A. J. Cronin, que ele dera para minha mãe, quando eram noivos. A capa era verde musgo e gravado em letras douradas em todos eles havia o nome do livro e o nome da minha mãe. Eu tinha medo de pensar em ler um que se chamava "O Castelo do Homem Sem Alma". Para mim, aquilo parecia coisa de terror. Mais velha é que fui perceber que era simplesmente a estória de um pai que expulsa de casa uma filha que engravidara...
Todos os livros que eu e minha irmã líamos passava pelo crivo do meu pai. Ele os lia previamente para que não caísse em nossas mãos nada "impróprio". O problema é que começamos a ler num ritmo muito mais acelerado do que ele conseguia/podia nos acompanhar. O primeiro que li, sem o aval prévio, foi "Tubarão", de Peter Benchley. Foi ali que começou a minha decepção de mais tarde ver transformados em filmes não tão bons, os livros maravilhosos que eu lera.
Depois da cirurgia de catarata ele parou de usar óculos, e acho que pela primeira vez comecei a ver o rosto do meu pai por completo. O cabelo já estava bem grisalho, mas a sobrancelha era pretinha. Caí na besteira de perguntar se ele andava pintando...Revolta total!
"Eu lá sou homem de pintar sobrancelha??? Não pinto cabelo, vou pintar sobrancelha??".
Como bom gordinho, não rejeita nada que seja comestível e por isso se tornou minha maior cobaia. Com toda a minha falta de talento na cozinha, um dia cheguei na casa dele e tinha uma batedeira de bolo em cima da mesa da sala. Disse que era presente para mim. Quando argumentei que eu já tinha batedeira, liquidificador, tudo, ele argumentou: "pensei que suas comidas não dessem certo por falta dos equipamentos adequados..."
Mas até hoje continua prestigiando aquilo que chama de "experiências gastronômicas da Gina".
Quando eu era menina, minha irmã, que tem 5 anos a mais, dizia que eu era adotada, que minha mãe tinha me achado na rodoviária do Plano Piloto. Eu chorava até cansar.
E isso hoje me é motivo de imenso orgulho.
Privilégio tê-lo tido ao meu lado nos últimos 51 anos.
Tomara que ainda tenhamos muitos mais.











Que bela homenagem a seu pai, Gina. Parabéns, e que pai divertido, você tem.
ResponderExcluirLindo texto, minha irmã, uma bela homenagem a esse nosso pai maravilhoso, guerreiro, provedor, amoroso.
ResponderExcluirMaravilhoso mesmo!
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